Carta ao Silêncio
Eu sei que você se esconde.
Não gosta de ser notado.
Desliza discreto sem que o barulho perceba.
Vai embora sem dizer para onde.
Às vezes gosto de ficar perto de você.
Ouvir suas sílabas sussurrando
Sibilantes
Sozinhas.
Preciso do seu ruído
De chuva descendo o telhado
De rio dando nas pedras
De mar invadindo a areia.
Só assim para ouvir o barulho de dentro
De veias e vozes
De vírgulas e válvulas.
Só assim para saber de mim
Onde soam os sinos da dor
Onde mora a vontade contida.
Mas não fique tão lisonjeado.
Não gosto quando você chega sem ser chamado.
Quando se impõe, autoritário.
Se instala por dentro, entala a garganta.
Faz descer de volta à subconsciência
Tudo o que ousa emergir.
Sufoca.
Suprime.
Jura que promoveu a paz.
E o barulho se arma por dentro
Declara a guerra, promove o caos.
Entenda, amigo, não é nada pessoal.
É que você tem mais serventia
Quanto tudo começa a gritar
Aí sim você cura, em vez de adoentar.

